Existe uma forma muito legal que gosto de classificar a fotografia: Fotografia Estética e Fotografia de Recordação Sensorial.

Fotografia Estética trata-se basicamente disto:

http://www.youtube.com/watch?v=iYhCn0jf46U

Comercial Dove - 2006. Mostra que percepção de beleza é algo no mínimo delicado.

Em resumo, é quando a fotografia não fala muita coisa, apenas mostra uma pessoa ou coisa da forma mais próxima possível do padrão de beleza da época, e muitas vezes, até de forma falsa e completamente anti-natural.

Esse tipo de fotografia normalmente foge à realidade ou não tem nenhum compromisso com ela; é algo montado com todas as ferramentas possíveis para mostrar um ideal. Seja ela bem sucedida ou não, trata-se de uma imagem que preocupa-se apenas em mostrar uma beleza ou característica, não nos faz lembrar de nada e raramente nos emociona.

É uma arte muito utilizada ao se vender algo, como por exemplo, fotografia de comida (o sanduíche nunca é realmente daquele jeito né?!), de produtos de beleza e books de modelo.

Mas o que tem a ver com a fotografia de eventos?

Quando estamos em uma festa de aniversário na pizzaria com nossos amigos e queremos registrar aquele momento, o que nós fazemos? Olhamos para a câmera pelo nosso melhor ângulo e sorrimos.

Essa foto não está compromissada com o acontecimento, não fala muita coisa e não expressa nenhuma emoção verdadeira (apesar dos sorrisos) relacionada ao evento. 

Problema maior desse costume é quando se contrata um fotógrafo profissional para fazer isso. Esse costume cria a ideia de que, ao contratar um fotógrafo para o seu casamento, estão contratando alguém para ir de mesa em mesa com os noivos, fazer com que todos os convidados se levantem e olhem para a câmera pelo seu melhor ângulo, sorrindo.

Tenho duas fotos de criança que ilustram bem esse pensamento.

Uma de quando eu tinha meus 5 anos (que não vou postar aqui) que foi tirada por um profissional em um estúdio em que eu estou sem camisa, com boné para trás, sorrindo e, ao fundo, há um quadro de uma praia. Essa bendita foto não me recorda nada, pois eu nunca gostei de andar sem camisa e, de fato, eu não estava na praia. É uma foto com luz bem calibrada, mas que não foi feita para recordar nada; é uma foto estética.

Em contra-partida tenho uma foto tirada pela minha própria mãe em que eu estava na garagem de casa brincando, às gargalhadas, em uma cadeirinha que eu adorava; quando eu olho para aquela foto, me lembro até da textura da cadeira, dos brinquedos que tinha e de como eu era feliz naquela época. Isso porque  é uma fotografia cheia de emoção, que fala muita coisa e eu gosto de chamar de Fotografia de Recordação Sensorial, como uma máquina do tempo que me remete ao tempo congelado naquele pedaço de papel.

A fotografia a seguir é uma imagem de Recordação aplicada à uma sessão fotográfica, que muitos chamam de BOOK (será que é por isso que pensam que todo fotógrafo só faz Fotografia Estética?):

Esta é uma foto de completa espontaneidade do casal em um jantar à luz de velas. Um momento em que até eu como fotógrafo, quando vejo a foto, me lembro de cada detalhe. Essa foto mexe com a lembrança, fala de um casal na expectativa de um casamento.

Quando enviamos o questionário aos nossos clientes para montarmos a sessão fotográfica, queremos descobrir que tipo de diversão os agrada, para que passemos um momento alegre ao realizarmos a sessão; assim, quando olharem as fotos, não se lembrarão de um dia de poses e sorrisos falsos de uma sessão fotográfica chata, mas sim de um momento divertidíssimo que passamos juntos.

O mesmo princípio aplicamos ao casamento, que é um evento fantástico, cheio de emoções que orbitam ao redor de duas pessoas; de fato, não precisamos transformá-lo em uma sessão fotográfica cansativa, pois, quando isso acontece, os noivos recebem um álbum repleto de fotos de pessoas enfileiradas lado-a-lado, sorrindo, e não se sabe realmente o que aconteceu na festa. Isto é horrível tendo em vista o trabalhão que dá para fazer aquela comemoração dar certo.

A base da fotografia de casamento está nessa emoção, que mora entre os sorrisos e os detalhes, para que a lembrança dessa emoção se perpetue:

Claro que a fotografia de recordação tem seu alicerce na espontaneidade e no seu compromisso com a realidade, mas não quer dizer que não se preocupe com a beleza do momento e das pessoas envolvidas.

Também não estou dizendo que não gosto da fotografia Estética. Pelo contrário, trata-se de uma arte lindíssima e extremamente útil no mundo de hoje. Também trabalhamos com esse tipo de Fotografia quando fazemos trabalhos de bandas, produtos, comidas, lojas, empresas etc.

Em muitos momentos, como em sessões de noivas, apesar de sempre tentarmos extrair toda a emoção da noiva vestida e seus anseios, procuramos realizar fotos Estéticas também, com toda a beleza e o glamour.

Por isso gosto de dizer que, no tocante à

fotografia da vida,

de pessoas e casais,

como é a maioria dos nossos trabalhos, a boa fotografia de recordação é aquela que se preocupa com a estética, e que a boa fotografia Estética é aquela que não se esquece de recordar algo.

Afinal, de que vale uma boa foto se ela não te traz nenhuma lembrança?

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